Arthur Bennett®
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Resenha Literária — O Escravocrata, de Artur Azevedo e Urbano Duarte

 

Arthur Bennett®

Cadeira n.º 33 da Academia Itaitubense de Letras - AIL

Cadeira n.º 324 da Academia Independente de Letras AIL/Ordem SCRIPTORIUM

 

Publicado em 1884, O Escravocrata é um drama em três atos, escrito por Artur Azevedo, um dos maiores nomes do teatro brasileiro do século XIX, em parceria com Urbano Duarte, jornalista e abolicionista atuante. A obra mergulha no coração do debate abolicionista brasileiro em seus momentos finais, surgindo cinco anos antes da promulgação da Lei Áurea.

O texto denuncia, com clareza e contundência, as contradições da elite que sustentava o regime escravocrata, expondo não apenas as relações econômicas e políticas envolvidas, mas também as tensões morais e os autoenganos que o legitimavam. Na época, a peça enfrentou resistência institucional: chegou a ser recusada por conservadores ligados ao meio teatral e a círculos influentes, sob a alegação de que sua crítica frontal feria valores e costumes ainda fortemente enraizados.

A narrativa acompanha a trajetória de um herdeiro de fazenda que se vê diante da mais incômoda herança de sua família: um sistema econômico sustentado pela escravidão. Dividido entre o prestígio social e o peso da consciência, o protagonista é compelido a confrontar dilemas éticos profundos, que escancaram, no palco, a hipocrisia e a complacência de sua época.

Ao redor dele, gravitam personagens que representam um mosaico da sociedade brasileira oitocentista: senhores de engenho orgulhosos, intermediários ambíguos, religiosos complacentes e figuras que oscilam entre a defesa da tradição e o desejo de mudança. Essa diversidade de vozes dá à obra um caráter quase documental, registrando mentalidades e discursos típicos do período pré-abolição.

O texto combina sátira e drama com rara habilidade. Artur Azevedo, mestre no humor crítico, usa a ironia como porta de entrada para o espectador, preparando-o para momentos de forte impacto moral. Os três atos são cuidadosamente estruturados, crescendo em tensão e densidade dramática até o clímax.

Há, entretanto, passagens marcadas por um didatismo excessivo e trechos discursivos longos, que funcionavam bem para o público do século XIX — acostumado a peças mais oratórias —, mas que hoje podem exigir cortes e ajustes para garantir maior fluidez em cena. Ainda assim, esses elementos não diminuem a força da obra, que consegue equilibrar com habilidade o entretenimento e a crítica social.

Escrita no auge do movimento abolicionista, O Escravocrata dialoga diretamente com as tensões políticas e sociais de sua época. O teatro, nesse momento, não era apenas palco de diversão, mas um espaço estratégico para a circulação de ideias e para a formação da opinião pública.

Azevedo e Duarte assumem posição clara: seu texto é um manifesto contra a escravidão, mas não se limita ao discurso panfletário. Ao transformar o debate moral em conflito humano, a peça busca atingir não apenas a razão, mas também a emoção do espectador — estratégia típica do teatro engajado que marcou o final do século XIX.

Mais do que um documento literário, O Escravocrata é um testemunho de como a arte pode funcionar como ferramenta de transformação social. Sua leitura hoje revela não apenas o contexto histórico da abolição, mas também ecos contemporâneos: discussões sobre desigualdade, privilégios e resistência a mudanças ainda encontram paralelo na realidade brasileira.

A obra continua provocando desconforto e questionamento — sinais de que cumpre plenamente sua função de arte engajada. Para montagens contemporâneas, é recomendável preservar os conflitos centrais e a crítica moral, ajustando o ritmo e o texto para dialogar com a sensibilidade atual, sem diluir sua contundência.

O Escravocrata permanece como uma peça essencial para compreender a dramaturgia brasileira do século XIX e o papel do teatro no movimento abolicionista. Sua força está em unir qualidade artística e posicionamento ético, transformando o palco em tribuna. Leitura e montagem são não apenas recomendáveis, mas necessárias para quem deseja entender como a literatura e as artes cênicas ajudaram a moldar o pensamento social e político do Brasil.

Arthur Bennett
Enviado por Arthur Bennett em 29/08/2025
Alterado em 29/08/2025
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